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Comer saudável: é mesmo mais caro?

Comer saudável: é mesmo mais caro?

Publicado em 08 de Junho de 2026 at 16:37

O cabaz alimentar subiu 38% em quatro anos. Um em cada três portugueses não tem ferramentas para lidar com isso à mesa. As respostas existem e são mais simples do que parecem.

Em janeiro de 2022, o cabaz de 63 bens alimentares essenciais monitorizado pela DECO PROteste custava cerca de 188 euros. Em abril de 2026 chegou aos 259,52 euros, o valor mais elevado desde que o acompanhamento semanal começou. Para muitas famílias portuguesas, a pergunta deixou de ser se devem comer melhor. Passou a ser como.

O Estudo Nacional de Avaliação da Literacia Alimentar em Adultos, realizado pela Pitagórica com o apoio do Continente e da Associação Portuguesa de Nutrição (APN), traçou no início de 2026 o retrato mais completo das competências alimentares dos portugueses. O score global de literacia alimentar fixou-se nos 57,5%, numa escala de zero a cem. Um em cada três adultos fica abaixo dos 50%. O pior resultado regista-se na dimensão do consumo, a que implica transformar o conhecimento em escolhas reais, dia a dia, compra a compra.

“Embora o acesso à informação sobre nutrição seja hoje generalizado, persistem desafios significativos na capacidade de transformar esse conhecimento em práticas alimentares equilibradas”, sublinha Helena Real, secretária-geral da APN. O problema agrava-se entre as famílias com rendimentos mais baixos, as mais expostas à inflação e com menos ferramentas para a contornar.

Inflação à mesa

A inflação alimentar não abrandou. Em 2025, a média europeia fixou-se nos 2,8%, segundo o Eurostat. Mas os números agregados escondem variações brutais em produtos concretos: o chocolate subiu 17,8% na Europa; a carne de vaca e de vitela, 10%; os ovos ultrapassaram os 20% em vários países, incluindo Portugal.

“O maior risco é a transferência de consumo de alimentos mais interessantes do ponto de vista nutricional para opções mais desequilibradas, quando estas são mais económicas”, alerta Helena Real.

A ideia de que comer saudável é inevitavelmente mais caro é, para a secretária-geral da APN, um mito com nuances. “Comer saudável não tem que ser mais caro, sobretudo quando se faz uma seleção criteriosa dos alimentos, escolhendo produtos sazonais, comprados a granel ou menos processados.” O que encarece, esclarece, é a conveniência: os alimentos pré-preparados, descascados, já lavados. O produto em si, na sua forma mais básica, raramente é o mais caro.

Muitas vezes, as melhores escolhas são também as mais simples e acessíveis: arroz, massa, batata, leite, ovos, leguminosas, conservas de pescado, hortícolas, fruta da época.

Mayumi Delgado, nutricionista e responsável por Desenvolvimento de Produto do Continente, confirma o padrão. “Quando o orçamento aperta, o consumidor torna-se muito mais racional. Procura preço, mas sobretudo segurança: produtos que rendem, que permitem várias refeições e que são aceites por toda a família.” O problema é que essa racionalidade nem sempre conduz às melhores escolhas nutricionais.

O estudo de literacia alimentar identifica quatro áreas onde os portugueses mais falham: compreender o impacto das suas escolhas, interpretar rótulos e selos de classificação, usar informação nutricional para decidir o que comprar e identificar métodos de confeção que preservam os nutrientes. São estas competências que fazem a diferença entre uma ida ao supermercado eficiente e uma que custa mais sem nutrir melhor.