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Sabemos que é a melhor. Porque a abandonámos?

Male Waiter Pouring Olive Oil Dressing on Fresh Mediterranean Salad

Sabemos que é a melhor. Porque a abandonámos?

Publicado em 27 de Agosto de 2026 at 08:00

Portugal tem no seu prato, há séculos, o padrão alimentar mais saudável do mundo. O problema é que deixou de o seguir.

O padrão alimentar mais estudado e mais premiado do mundo nasceu à volta de uma mesa, em países banhados pelo Mediterrâneo, a partir de ingredientes simples, frescos e da época. Portugal é um desses países. E ainda assim, apenas 26% dos portugueses seguem hoje o padrão alimentar que é, por herança, o seu.

A dieta mediterrânica é o padrão alimentar com maior evidência científica acumulada nas últimas décadas. “É um padrão alimentar completo, baseado em produtos hortícolas e fruta em abundância, leguminosas, cereais pouco refinados, azeite como principal fonte de gordura, consumo regular de peixe e um consumo baixo de carnes vermelhas e processadas. E é precisamente esta combinação, mais do que qualquer alimento isolado, que explica os benefícios que a ciência já demonstrou”, explica a nutricionista Mariana Chaves.

O estudo mais robusto é o PREDIMED, um ensaio clínico espanhol com mais de 7.400 participantes de alto risco cardiovascular. Os grupos que seguiram uma dieta mediterrânica tiveram uma redução de cerca de 30% no risco de eventos cardiovasculares major, comparativamente a um grupo de controlo. “Este tipo de resultado, obtido num ensaio controlado e não apenas em estudos observacionais, é raro em nutrição e deu um peso científico enorme a este padrão alimentar”, sublinha Mariana Chaves.

Manuel Oliveira Carrageta, professor doutor e presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, sublinha o papel central do azeite virgem extra. “É a principal fonte de gordura na dieta mediterrânica e aquele que mais se distingue pelas suas qualidades benéficas para a saúde”.

O azeite virgem extra é a principal fonte de gordura na dieta mediterrânica e aquele que mais se distingue pelas suas qualidades benéficas para a saúde.

Um padrão nosso que deixámos de seguir

O paradoxo é evidente. Portugal partilha a matriz cultural e alimentar mediterrânica, mas afastou-se dela. Em 2016, apenas 18,2% dos portugueses apresentava uma adesão elevada a este padrão. Em 2020, esse valor subiu para 26%, uma melhoria, mas ainda assim uma minoria.

Mariana Chaves aponta que “cerca de 95% dos portugueses continuam a referir o azeite como principal gordura de confeção. O núcleo do padrão mantém-se, mas perde-se tudo o resto à volta: as leguminosas, a frequência de hortícolas, a forma de cozinhar. As pessoas acham que seguem a dieta mediterrânica porque usam azeite, quando na realidade abandonaram praticamente tudo menos isso.”

O professor Carrageta identifica uma ironia que a ciência confirma: a dieta mediterrânica é hoje celebrada com entusiasmo crescente nos Estados Unidos e no norte da Europa, enquanto entra em declínio precisamente nos países onde nasceu. Num mercado alimentar saturado de dietas da moda, jejuns intermitentes e superalimentos importados, a evidência científica continua a apontar para o mesmo padrão de sempre. A causa do abandono, diz, é a adoção pelos mais jovens de padrões alimentares ricos em gordura saturada, sal e açúcar. Um abandono que tem custos reais em saúde pública e que os especialistas consideram ainda reversível.

Mariana Chaves identifica quatro fatores que se cruzam: o preço percebido do peixe e do azeite de qualidade, uma literacia alimentar baixa sobretudo na prática, a mudança de paladar e de hábitos com cada vez menos tempo para cozinhar, e um gradiente socioeconómico e geracional em que a adesão é mais baixa nos mais jovens e nos grupos de menor rendimento.

Para o presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, a questão ultrapassa a nutrição. “A alimentação mediterrânica deve ser novamente adotada em Portugal, não só como um ato de respeito pelo nosso património cultural, como também por ser uma opção agradável, inteligente e saudável.”