Um padrão nosso que deixámos de seguir
O paradoxo é evidente. Portugal partilha a matriz cultural e alimentar mediterrânica, mas afastou-se dela. Em 2016, apenas 18,2% dos portugueses apresentava uma adesão elevada a este padrão. Em 2020, esse valor subiu para 26%, uma melhoria, mas ainda assim uma minoria.
Mariana Chaves aponta que “cerca de 95% dos portugueses continuam a referir o azeite como principal gordura de confeção. O núcleo do padrão mantém-se, mas perde-se tudo o resto à volta: as leguminosas, a frequência de hortícolas, a forma de cozinhar. As pessoas acham que seguem a dieta mediterrânica porque usam azeite, quando na realidade abandonaram praticamente tudo menos isso.”
O professor Carrageta identifica uma ironia que a ciência confirma: a dieta mediterrânica é hoje celebrada com entusiasmo crescente nos Estados Unidos e no norte da Europa, enquanto entra em declínio precisamente nos países onde nasceu. Num mercado alimentar saturado de dietas da moda, jejuns intermitentes e superalimentos importados, a evidência científica continua a apontar para o mesmo padrão de sempre. A causa do abandono, diz, é a adoção pelos mais jovens de padrões alimentares ricos em gordura saturada, sal e açúcar. Um abandono que tem custos reais em saúde pública e que os especialistas consideram ainda reversível.
Mariana Chaves identifica quatro fatores que se cruzam: o preço percebido do peixe e do azeite de qualidade, uma literacia alimentar baixa sobretudo na prática, a mudança de paladar e de hábitos com cada vez menos tempo para cozinhar, e um gradiente socioeconómico e geracional em que a adesão é mais baixa nos mais jovens e nos grupos de menor rendimento.
Para o presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, a questão ultrapassa a nutrição. “A alimentação mediterrânica deve ser novamente adotada em Portugal, não só como um ato de respeito pelo nosso património cultural, como também por ser uma opção agradável, inteligente e saudável.”